Teoria de Dow em uma página
A base de toda a análise técnica cabe em seis princípios de um século atrás. O que cada um diz, o que ainda vale hoje e o que já virou regra de robô.

Charles Dow escreveu sobre o mercado no fim do século 19, em editoriais de jornal, sem nunca ter chamado aquilo de teoria. Outros juntaram os textos depois. O que ficou é a base de praticamente tudo o que a análise técnica faz até hoje, e vale conhecer não por história, mas porque cada princípio ainda aparece, disfarçado, na regra de quase todo robô.
1. O preço desconta tudo
Tudo o que se sabe, se teme e se espera já está no preço. Notícia, balanço, humor: quando você lê, o mercado já reagiu. Dow não dizia que o preço está sempre certo; dizia que ele é a soma de tudo o que os participantes acham, e que discutir com essa soma é inútil.
Para quem opera com regra, isso é o ponto de partida: a regra olha o preço, não a opinião sobre o preço.
2. O mercado tem três movimentos
A tendência primária, que dura de meses a anos. As correções secundárias, que andam contra a primária por semanas ou meses e devolvem parte do movimento. E as oscilações diárias, que Dow considerava ruído.
O detalhe que importa para quem opera curto prazo: o que é ruído para uma escala é tendência para outra. O day trade opera dentro do que Dow chamava de ruído, e mesmo ali existem os três movimentos, só que em minutos e horas. A estrutura se repete em toda escala; o que muda é o relógio.
3. Toda tendência tem três fases
Acumulação, quando poucos compram e o preço ainda não mostra; participação, quando a maioria percebe e o preço anda de verdade; e distribuição, quando quem comprou cedo vende para quem chegou tarde. A maior parte do movimento acontece na fase do meio, e é ela que os sistemas de tendência tentam capturar: entrar cedo demais é acumulação sem confirmação, entrar tarde é comprar a distribuição.
4. A tendência se define por topos e fundos
Este é o princípio que virou regra. Tendência de alta é uma sequência de topos mais altos e fundos mais altos; tendência de baixa, o contrário. Enquanto a sequência se mantém, a tendência está viva. Quando um fundo fica abaixo do anterior numa alta, a sequência quebrou.

Não precisa de indicador nenhum. É a leitura mais simples que existe, e é a que a maioria dos indicadores tenta reproduzir com uma fórmula. O bloco de estrutura de mercado do Centurion faz exatamente essa leitura como regra: a quebra de estrutura vira condição de entrada ou de saída.
5. O volume confirma
Num movimento saudável, o volume cresce na direção da tendência e diminui nas correções. Quando o preço sobe com volume cada vez menor, quem está comprando está acabando. Dow usava isso como confirmação, nunca como sinal sozinho, e continua sendo o uso certo: volume não diz para onde, diz com quanta convicção.
6. A tendência vale até prova em contrário
O princípio mais desobedecido. A tendência não acaba porque "já subiu demais" ou porque parece cara; acaba quando os topos e fundos dizem que acabou. Quem vende no meio de uma alta porque acha que ela está esticada está discutindo com o princípio 1.
Para um robô, isso é a diferença entre um sistema que segue a tendência até o sinal contrário e um que sai por palpite, e o segundo não existe: o robô não tem palpite, o que é a maior vantagem dele.
O que ainda vale, cem anos depois
Dow olhava índices de ações no fechamento do dia, num mercado sem computador. Mesmo assim, os princípios 1, 4 e 6 são a espinha de qualquer estratégia de tendência, inclusive de mini-índice em minutos: o preço é o que vale, topos e fundos definem a direção, e a saída é por sinal, não por opinião.
O que envelheceu é a ideia de que o diário é ruído. Para quem opera o dia, o diário é o mercado inteiro. E a leitura de volume, pensada para ações, precisa de cuidado nos contratos futuros, onde o volume tem outra dinâmica.
Como isso vira regra
Uma estratégia "de Dow" escrita como condição fica assim: compra quando o preço faz um topo acima do topo anterior depois de um fundo acima do fundo anterior; sai quando um fundo fica abaixo do anterior; e o tamanho da operação respeita um limite de perda por dia. Três linhas. Tudo o que vem depois (filtro de horário, stop, alvo) é o que separa a leitura de Dow de uma estratégia que se sustenta no backtest, e explicamos como testar em Backtest, forward test e walk-forward.
Se você quiser começar a estudar análise técnica por um lugar só, é aqui. O resto é elaboração.


